Nº23 – Premiação

Um prêmio à versatilidade

Personalidades ligadas à cultura receberam honraria que leva o nome de Guilherme de Almeida, um dos mais completos artistas nacionais

Gisele Machado | gisele@saopaulo.sp.leg.br

Ostracismo – Guilherme de Almeida, famoso até a década de 1960, hoje é pouco conhecido | Foto: Acervo Casa Guilherme de Almeida

 

Integrante do grupo da Semana de Arte Moderna de 1922, precursor da crítica cinematográfica no jornalismo do País e compositor parceiro de Villa-Lobos, Guilherme de Almeida foi um artista completo. Deixou mais de 70 publicações entre poesia, prosa, ensaios e material jornalístico. Num concurso patrocinado pelo jornal carioca Correio da Manhã em 1959, foi eleito príncipe dos poetas brasileiros após concorrer com Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e Mauro Mota. Foi membro das academias Paulista e Brasileira de Letras e comandou a comissão responsável por celebrar o Quarto Centenário paulistano, em 1954.

Almeida é o poeta predileto da dramaturga Renata Pallottini: “ele tinha uma maneira de escrever em cujo espírito se pode entrar desde a adolescência, com versos que pareciam muito simples, mas sobre os quais havia muito o que pensar e sentir em mais profundidade”, diz. Para a escritora, o melhor do seu ídolo eram os sonetos, com métrica, melodia, ritmo e rimas muito bem cuidados.

AMIZADE – O artista interage com Ling-ling, seu cão pequinês | Foto: Acervo Casa Guilherme de Almeida

 

“Era conhecido nas escolas, onde os alunos decoravam seus poemas porque os professores recomendavam, e seus livros vendiam edições sucessivas”, conta Marcelo Tápia, diretor da Casa Guilherme de Almeida – um espaço cultural do governo paulista que busca trazer à tona a memória sobre o intelectual, que caiu no ostracismo após a década de 1960.

Quando já não era tão famoso, Guilherme chegou a se candidatar, sem êxito, a uma vaga de deputado estadual por São Paulo, em 1950. O esquecimento, que pode ter atrapalhado sua candidatura, intensificou-se após sua morte, em 1969, pouco antes de completar 79 anos. “Há interesses que podem ter levado à marginalização de Guilherme”, supõe Tápia. Segundo ele, entre esses está “a utilização de sua participação na Revolução de 1932 para caracterizar que teria voltado a ser um passadista depois de ter experimentado o Modernismo, uma afirmação de muitos críticos que não resiste à leitura de sua obra”. Manteve, inclusive, a amizade com modernistas como Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

COMPANHIA – Na casa de seu pai, Guilherme (no canto inferior, à direita) posa com sua futura esposa, Baby, Mário de Andrade (de chapéu) e outros intelectuais | Foto: Acervo Casa Guilherme de Almeida

 

Para Renata Pallottini, Guilherme foi um modernista moderado, mais comedido. “Era um poeta de muitos bons modos, que não se atirava a fazer grandes quebras, rupturas, a dizer coisas muito novas, enquanto havia modernistas como Oswald de Andrade, que dizia as maiores loucuras que lhe vinham à cabeça.”

Neta de Guilherme, Maria Izabel Barrozo de Almeida diz ter a sensação de que o avô era mais clássico do que moderno. Lembra que ele e a avó, Belkiss Barrozo de Almeida, a Baby, tinham pela casa inúmeros retratos seus presenteados e assinados pelos modernistas mais importantes da época, como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Lasar Segall e Victor Brecheret.

“Meu avô era notívago, tinha uma vida social intensa, recebia muitas visitas, como Menotti Del Picchia e Paulo Bomfim, e era o centro das atenções, falava coisas curiosas”, lembra-se Izabel, “com os olhos de uma criança”, já que era adolescente quando Guilherme de Almeida morreu. Ela recorda que o avô gostava de recontar a história de cada objeto que havia em casa.

MEMÓRIA – Marcelo Tápia, na casa que já foi de Guilherme de Almeida e hoje é um centro cultural | Foto: Ricardo Rocha/CMSP

 

“Ele tinha, digamos, um laivo de romantismo, mas eu não poderia considerar o Guilherme conservador”, diz Anna Maria Martins, primeira-secretária-geral da Academia Paulista de Letras. Paulo Bomfim, que viveu com Guilherme de Almeida a Semana de Arte Moderna, tenta descrevê-lo num depoimento em vídeo para a TV Cultura: “era um homem de profundas raízes, mas ao mesmo tempo, profundamente antenado com o presente e com o futuro”.

Modernista engajado

Na opinião de Marcelo Tápia, o engajamento político que levou Guilherme a se candidatar a um cargo público pode ter sido o que o levou a se alistar (e a lutar) como soldado raso durante a Revolução Constitucionalista de 1932, época em que editava o Jornal das Trincheiras. Por conta disso, o poeta foi preso quando o movimento chegou ao fim, em outubro daquele ano. Ficou exilado em Portugal, onde permaneceu até 1933.

“Ele estava interessado na defesa do estado de direito, em contrapartida à ditadura de Getúlio, sem o discurso separatista que o próprio governo federal quis relacionar à Revolução”, diz Tápia, ao explicar que Almeida tinha um perfil democrático, ainda que também tenha tido um lado conservador “bem forte”. “Acredito que nunca tenha se engajado ao integralismo como alguns modernistas dissidentes”, afirma.

HOMENAGEADA – “Ele fazia versos que pareciam simples, mas sobre os quais havia muito o que pensar”, diz Pallottini | Foto: Mozart Gomes/CMSP

O conservadorismo de Almeida está, por exemplo, na importante atuação cívica. Um poema seu virou letra do hino do Estado de São Paulo. Também era especialista em heráldica e, nessa condição, criou o brasão de Brasília e foi coautor do brasão da cidade de São Paulo. Também escreveu a Canção do expedicionário, considerada o hino da Força Expedicionária Brasileira (FEB), grupo militar que lutou pelo Brasil na II Guerra Mundial. A letra homenageia tradições e poemas famosos de brasileiros, como a Canção do exílio, de Gonçalves Dias. “Por mais terras que eu percorra / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte para lá”, diz uma das estrofes de Almeida.

Assim como na vida, em sua obra literária Guilherme de Almeida transitou por conceitos diversos. “Talvez mais do que qualquer outro dos participantes da Semana de Arte Moderna, ele viveu o drama da conciliação estética do novo com o velho, da fôrma com a forma, da tradição com a invenção, da rotina e do automatismo das receitas com o clamor de criatividade”, explicou o escritor Lêdo Ivo na introdução de uma das edições do livro de poemas de Almeida intitulado Raça, que segue uma linha nacionalista do Modernismo, apegada às temáticas brasileiras.

JURADA – “Guilherme falou muito no paulistano, na importância da nossa cidade”, afirma Anna Maria Martins | Foto: Mozart Gomes/CMSP

Filho do jurista e professor de Direito Estevam de Almeida, Guilherme traduzia do grego com maestria (traduziu Antígona, de Sófocles), mas estava sempre atento às inovações de linguagem. “Ele foi divulgador do haikai (forma poética de origem japonesa) no Brasil e, pouco antes de morrer, deixou o livro Margem (sem publicar) dialogando com a vanguarda da poesia da década de 1960”, diz Tápia.

Reconhecimento

Para relembrar a importância do poeta, a Câmara Municipal criou, por meio da Resolução 5/2015, proposta pelos vereadores Aurélio Nomura (PSDB), Reis (PT) e Toninho Paiva (PR), a honraria Colar Guilherme de Almeida – O poeta de São Paulo e da Epopeia de 32. “Esta é a primeira premiação cultural criada pela Câmara Municipal de São Paulo”, diz Teresa Cristina Borges, consultora de Relações Públicas do Legislativo paulistano e uma das responsáveis pelo evento.

O Colar Guilherme de Almeida é concedido anualmente a até nove homenageados – pessoas físicas e jurídicas, nacionais ou estrangeiras, que tenham prestado colaboração relevante à literatura, ao cinema, ao teatro, à música, às artes plásticas e a outras formas artístico-culturais de manifestação, bem como à preservação e à divulgação da história da cidade de São Paulo.

A decisão sobre quem receberá a honraria é de uma comissão composta por até dois representantes de cada uma dessas entidades: Museu Casa Guilherme de Almeida, Sociedade Veteranos de 32 – MMDC, Academia Paulista de Letras, Academia Paulista de História, Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e Centro de Memória Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Um dos representantes do Museu Casa Guilherme de Almeida deve exercer também a presidência da comissão.

HABILIDADE – O artista também traduzia do grego com maestria | Foto: Acervo Casa Guilherme de Almeida

 

“Guilherme falou muito no paulistano, na importância da nossa cidade, dos bandeirantes, das características do habitante, do que ele trouxe à cidade”, lembra Anna Maria Martins, que integra a comissão julgadora do prêmio. Qualquer pessoa física ou jurídica, desde que esteja ligada ao tema da premiação, pode sugerir à Câmara nomes a serem homenageados. A indicação deve ser encaminhada até 30 de abril de cada ano.

Em 9 de dezembro de 2016, ocorreu a primeira edição da premiação, no Plenário da Câmara Municipal de São Paulo (CMSP). Confira a lista com os homenageados no quadro abaixo.

Colar Guilherme de Almeida 2016

Homenageados

Antonietta Tordino – presidenta do Sindicato Nacional dos Artistas Plásticos, é também membro executivo da Associação Internacional de Artes Plásticas, filiada à Unesco.

Archimedes Lombardi – fundador do Cineclube do Ipiranga e da Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes em 16 mm. É exibidor voluntário de filmes em escolas e universidades no Município.

Companhia Teatro Documentário – leva a não ficção à cena teatral e estuda as peculiaridades dessa proposta estética.

Ives Gandra da Silva Martins – jurista. Ganhou o Prêmio Esso do IV Centenário de São Paulo com a monografia A história de São Paulo até 1930. Membro da Academia Paulista de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Paulista de História.

José Maria Pereira Lopes – coordenador do Centro de Documentação (que inclui a Filmoteca) da TV Cultura de São Paulo.

Mauricio Kirilos – ligado ao movimento de veteranos de 1932, já foi condecorado pela Sociedade Veteranos de 32 MMDC e pela Associação Brasileira das Forças Internacionais de Paz da ONU.

Marcelo Mattos Araujo – presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Integra o Conselho de Administração da Fundação Bienal de São Paulo e da Fundação José e Paulina Nemirovsky.

Paulo Bomfim – decano da Academia Paulista de Letras. Seu livro de estreia em 1947, Antônio triste, com prefácio de Guilherme de Almeida e ilustrações de Tarsila do Amaral, ganhou o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras.

Renata Pallottini – como dramaturga, ganhou os prêmios Molière e Governador do Estado pelo texto O crime da cabra e o Prêmio Anchieta, da Comissão Estadual de Teatro, por O escorpião de Numância. Como escritora de poesia, levou o Prêmio Jabuti pelo livro Obra poética. Como tradutora, venceu prêmios da União Cultural Brasil-Estados Unidos e da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). É membro da Academia Paulista de Letras.


Saiba mais

Casa Guilherme de Almeida
Instalada no local em que o artista morou até morrer, preserva seus objetos pessoais, além de obras oferecidas a ele por artistas como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Lasar Segall e Victor Brecheret
www.casaguilhermedealmeida.org.br