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A profecia deu certo

Poucos anos antes de ser vereador, o jovem engenheiro Reinaldo Canto Pereira ouviu de um vidente que seguiria carreira política. E caiu na gargalhada
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Rodrigo Garcia | rodrigogarcia@saopaulo.sp.leg.br

Publicada originalmente em fev/2016 – edição nº 18

No início dos anos 1950, o engenheiro recém-formado Reinaldo Canto Pereira conversava com o vidente Chacarian Sana-Khan e teve uma revelação: um dia entraria para a política e seguiria carreira. O então funcionário da Prefeitura de São Paulo caiu na gargalhada e não deu importância à profecia. “Eu detestava política, era como se tivesse dito que eu seria bailarino”, conta hoje, ainda rindo com a história. Entretanto, Sana-Khan acertou em cheio, e Canto Pereira orgulha-se de todos os cargos (por eleição ou indicação) que ocupou nas esferas municipal, estadual e federal. Uma longa carreira para quem não gostava do assunto.

Ex-vereador ocupou cargos nas esferas municipal, estadual e federal |  Ângelo Dantas/CMSP

Com 89 anos, o ex-vereador se lembra com satisfação das atividades que exerceu. “Sempre dei o melhor de mim, respeitando todo mundo”, afirma. “E não enriqueci”, faz questão de ressaltar. O ex-parlamentar também se orgulha de ter ficado amigo de quase todos os políticos com quem conviveu: “Fiz muitas amizades e procurava não ter raiva de ninguém”.

Um de seus seis filhos, o primogênito Reinaldo Canto Pereira Filho, lembra que o pai, em todas as posições que ocupou, demonstrou grande preocupação com o futuro de São Paulo e “conseguiu enxergar antes o crescimento desordenado da cidade”.

Reinaldo pai foi subprefeito de Vila Maria (bairro da zona norte da capital), vereador, secretário de Obras do Município, diretor do Centro Estadual de Abastecimento (Ceasa, atual Ceagesp), diretor do Departamento de Trânsito do Estado, administrador regional do Ipiranga e chefe do Escritório do Conselho Nacional do Petróleo em São Paulo, entre outros cargos.

Edição: Eduardo Dias / CMSP

Filho do dentista Jandiro Joaquim Pereira e da dona de casa Aída Lavínia do Canto Pereira, o político nasceu em 21 de agosto de 1926, em Botucatu, interior de São Paulo. Do pai, lembra-se que fumava muito, tanto que morreu de enfisema pulmonar aos 69 anos. Da mãe, que era muito culta e lia obras clássicas (algumas no original em francês) para o pai dela, que era cego. O gosto pela cultura, dona Aída passou para os filhos e os netos.

Ainda criança, Canto Pereira mudou-se para a capital paulista, onde estudou no Ginásio São Paulo e na Universidade Mackenzie, formando-se em engenharia civil. “Desde criança queria ser engenheiro, pois uma vez um primo mais velho me mostrou um brinquedo de madeira no qual se colocava uma moeda e ela desaparecia e depois aparecia de novo”, recorda-se. “Como eu consegui descobrir o segredo, minha família ficou impressionada e disse que eu tinha jeito e daria um bom engenheiro. Eu acreditei”.

Canto Pereira agradece a Medalha Anchieta concedida pelos vereadores em 1976| Acervo CMSP

Antes de terminar os estudos, começou a procurar emprego e bateu na porta da Prefeitura. Conseguiu uma vaga de topógrafo com a ajuda de um atestado de bons antecedentes, dado por Abreu Sodré, para que pudesse assumir o posto. Sodré era amigo da família e anos depois foi governador de São Paulo. Depois de formado, Canto Pereira tornou-se engenheiro da Prefeitura.

O ex-vereador é engenheiro civil formado na Universidade Mackenzie  | Foto: Arquivo pessoal

Em 1957, foi escolhido pelo prefeito Vladimir de Toledo Pisa para ser subprefeito da Vila Maria. Sua atuação recebeu elogios e muitos amigos o convenceram a sair candidato a vereador, em 1959, pelo Partido Social Progressista (PSP). A candidatura contou com o apoio do prefeito de São Paulo na época, Ademar de Barros.

Reinaldo Canto Pereira conseguiu 4.230 votos, dois a menos que Ítalo Fittipaldi, o vereador menos votado, e ficou na primeira suplência. “Foi triste, mas estava escrito que não era para eu ganhar”, resigna-se, mais de 50 anos depois. “Na nossa vida tudo está escrito”, acredita ele, que tem formação católica, mas hoje se diz um espiritualista. Em seu apartamento, há símbolos de várias religiões, como cristianismo e budismo, por exemplo. Com os pedidos de licença dos vereadores, assumiu o cargo em diversas ocasiões. Em 1963, foi candidato novamente e teve 4.875 votos. Mais uma vez, ficou na suplência.

Rodoviária da discórdia

Do período que passou no Palacete Prates, antiga sede da Câmara Municipal de São Paulo (CMSP), o ex-vereador se orgulha de ter apresentado o projeto de lei (PL) 268/1960, que possibilitou a construção da primeira rodoviária da cidade. Naquela época, os ônibus não tinham local certo para embarque e desembarque de passageiros. Para ir ao Rio de Janeiro, por exemplo, embarcava-se próximo à esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São João. Por sua vez, os ônibus com destino ao Vale do Paraíba saíam da Avenida Rio Branco. “Era a maior confusão”, recorda-se. “Foi um projeto muito polêmico, mas era do que a cidade precisava”, conta.

A proposta foi apresentada por Canto Pereira, a pedido do prefeito Ademar de Barros. “Se não tomarmos uma providência drástica, o trânsito em São Paulo, dentro de cinco anos, não poderá se movimentar”, alertou, ao defender seu projeto na tribuna da Câmara. Segundo ele, de 1954 a 1960 a velocidade média dos ônibus em São Paulo caiu de 14 km/h para 5 km/h. “Essa estatística nos assusta e nos mostra que nesta cidade, dentro de pouco tempo, não se poderá movimentar pelo seu centro com desembaraço”, argumentou.

Projeto de Canto Pereira possibilitou a construção da primeira rodoviária de São Paulo, na Praça Júlio Prestes | Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo

Outros vereadores entendiam a necessidade da estação rodoviária, mas criticavam a forma como estava sendo construída, por meio de uma parceria entre as iniciativas pública e privada. Em conjunto com a Prefeitura, os empresários Carlos Caldeira Filho e Octávio Frias de Oliveira idealizaram, ergueram e administraram a Estação Rodoviária São Paulo, na Praça Júlio Prestes, bairro Luz.

O vereador Ari Silva, do Partido Republicano (PR), era contra o projeto, e alegava que “atrás desse empreendimento existe um particular que ganhou todas as vantagens”, enquanto outros, não amigos do prefeito, não ganharam. Silva defendia a construção de outras rodoviárias: “Não é justo que somente quem teve a proteção direta do prefeito é que venha aferir lucros extraordinários”.

Membro mais velho da Associação dos Ex-Vereadores da Cidade de São Paulo, ele ainda participa de eventos na Câmara| Mozart Gomes/CMSP

Após muito debate no Palacete Prates e mudanças na proposta original, o projeto foi aprovado. Sem estar totalmente concluída, a nova rodoviária foi inaugurada em 25 de janeiro de 1961. O jornal Folha de S.Paulo (cujo proprietário José Nabantino Ramos era amigo próximo de Octávio Frias de Oliveira, que em 1962 comprou o jornal) afirmou em reportagem que o terminal iria “contribuir para a solução de um problema crônico, em cuja órbita a iniciativa do poder público nunca foi além dos planos e promessas”.

Por sua vez, o jornal O Estado de S.Paulo criticou a escolha do local. “A Praça Júlio Prestes não apenas é pequena, como principalmente está rodeada de ruas estreitas e imprestáveis para oferecer ao tráfego um índice de vazão pelo menos razoável”, declarou em editorial.

A Estação Rodoviária da Luz funcionou até 1982, quando o Terminal Rodoviário do Tietê foi inaugurado. O prédio foi demolido em 2010, acentuando a decadência da região conhecida como Cracolândia. Hoje, o local aonde os ônibus intermunicipais chegavam é um terreno vazio que serve de ponto de encontro de usuários de drogas.

Arte: Eduardo Dias/ CMSP

Admirador dos militares

No começo da década de 1960, o mundo estava dividido por causa da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética. O Brasil se contaminou por esse clima. O presidente João Goulart sofria uma oposição ferrenha. Políticos e militares conspiravam para derrubá-lo. Em 19 de novembro de 1963, Reinaldo do Canto Pereira se uniu a centenas de engenheiros e assinou o manifesto de fundação do Centro Democrático dos Engenheiros (CDE), que denunciava o clima político, administrativo, econômico e social do Brasil. “Preferimos acender uma luz, ainda que tênue, a estar esterilmente amaldiçoando a escuridão”, apontava o documento. “Os que, entretanto, desejam levar o povo ao desespero e o País ao caos nos terão pela frente, num combate implacável e sem quartel”, desafiavam os engenheiros.

Canto Pereira (à direita) era bem próximo de Ademar de Barros (ao centro) | Foto: Arquivo pessoal

Os opositores de Jango (apelido de João Goulart) o acusavam de querer transformar o Brasil em uma ditadura comunista. Canto Pereira havia visitado Havana em 1962, como convidado do governo cubano, para participar das celebrações do terceiro aniversário da Revolução Comunista. “Conheci pessoalmente Fidel Castro, ele tem muito carisma”, diz o ex-vereador, para em seguida ressalvar: “Sou contra o regime cubano, pois tirou a liberdade do povo”.

Na sessão da CMSP de 19 de março de 1964, quando houve em São Paulo a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, Canto Pereira elogiou o movimento que, segundo os organizadores, pretendia impedir o Brasil de se tornar uma Cuba. “Naquele país se via o nome de Deus banido de tudo”, narrou o ex-vereador. Até hoje ele se recorda de como ficou chocado quando soube que os padres cubanos eram forçados a trabalhar nos canaviais. “Por causa de meus princípios cristãos, não aceito isso”, condena.

O ex-parlamentar homenageou Sílvio Caldas (terceiro a partir da esquerda): fã e amigo | Foto: Arquivo pessoal

Em 6 de abril, Canto Pereira foi um dos 29 vereadores que assinaram o pedido para que a sessão ordinária, a primeira após o golpe de 31 de março, fosse considerada uma sessão especial em “comemoração dessa memorável vitória que há de ficar gravada em nossos corações para todo o sempre”. Ele também elogiou as Forças Armadas por terem evitado o “derramamento de sangue”.

O ex-vereador continuou apoiando o governo militar. Em 1967, propôs que a primeira-dama do Brasil, Iolanda Costa e Silva, fosse homenageada com título de cidadã paulistana pela CMSP. “Ela era tão tímida que ficou encabulada para receber a homenagem”, lembra-se. A proposta de Canto Pereira não chegou a ser votada porque seu mandato acabou.

Hoje, ainda é um admirador das Forças Armadas. “O Exército é a instituição que mais conhece o Brasil”, enaltece. E faz questão de ressaltar que não apoia um novo golpe militar. “Naquela época houve necessidade, agora não”, justifica. O ex-vereador também acredita que os militares deveriam ter devolvido o poder aos civis ainda na década de 60. “Demoraram muito”, lamenta. O regime militar acabou em 1985.

Canto Pereira assume a Secretaria de Obras POSSE – Canto Pereira assume a Secretaria de Obras do Município, em 1960/Foto: Arquivo pessoal

Canto Pereira assume a Secretaria de Obras do Município, em 1960/Foto: Arquivo pessoal

De seu período como vereador, Reinaldo Canto Pereira também se lembra de ter proposto o título de cidadão paulistano ao cantor Sílvio Caldas, em 1961. “Um fã do artista carioca me procurou para que eu sugerisse a homenagem”, diz. “Eu não o conhecia pessoalmente, mas depois que o conheci ficamos amigos, era um cara genial”, conta.

Ademarista convicto

Em 1960, como resultado de um acordo com a Câmara Municipal, o prefeito Ademar de Barros chamou Canto Pereira para ser secretário municipal de Obras. A gestão durou apenas um mês. Segundo o ex-vereador, um dia Ademar lhe fez uma grosseria enquanto estavam despachando. “Ele não olhava na minha cara”, relata. “Não pensei duas vezes: pus a pilha de documentos em cima da mesa e fui embora, nunca mais voltei.”

Canto Pereira relembra que o prefeito telefonou pedindo desculpas e querendo fazer as pazes, e ele perdoou. “Ademar de Barros sabia convencer as pessoas, tinha uma lábia fantástica”, diz, com saudades, Canto Pereira.

Depois desse episódio, os dois políticos ficaram mais próximos. Ademar, que era médico mas não exercia a profissão, uma vez se prontificou a prescrever um remédio para inflamação nos olhos a Canto Pereira, que guarda a receita até hoje. “Sou um ademarista convicto”, define-se.

Em 1965, Ademar de Barros estava no terceiro mandato de governador do Estado de São Paulo e nomeou Ademar de Barros Filho presidente da Central Estadual de Abastecimento (Ceasa), atual Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). O escolhido para ser diretor administrativo da Ceasa foi Canto Pereira. “O Ademarzinho era ótimo, só aceitou ser presidente se eu fosse trabalhar com ele”, orgulha-se o ex-vereador.

O ex-vereador e os filhos Ricardo, Reinaldo, Taís, Ana Cecília, Flavio e Luiz (a partir da esquerda)
| Foto: Arquivo pessoal

Ainda no governo de Ademar de Barros, em 1966, Canto Pereira foi nomeado diretor do Departamento de Trânsito do Estado. “A imprensa me acusava de parar São Paulo, mas o que fiz foi diminuir os engarrafamentos”, defende-se. “Por exemplo, eu fiz o primeiro anel viário da cidade”, lembra.

Ele conta também que só votou uma vez em Jânio Quadros, principal adversário político de Ademar: foi em 1985, quando Quadros derrotou Fernando Henrique Cardoso na disputa pela Prefeitura de São Paulo. “Votei porque o ministro Roberto Cardoso Alves, de quem eu era muito próximo, pediu”, esclarece. “Roberto era como um irmão para mim”.

Reconhecimento da CMSP

Reinaldo Filho: “meu pai conseguiu enxergar antes o crescimento desordenado da cidade”
Foto: Arquivo pessoal

Por sugestão do vereador Nestor Ribeiro, da Aliança Renovadora Nacional (Arena), em 1976 a Câmara Municipal homenageou Reinaldo Canto Pereira concedendo-lhe a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo.

Em 1990, ele tentou se eleger deputado federal e, quatro anos depois, estadual. Não conseguiu. Mesmo sem ocupar um cargo público, continua propagando suas ideias, principalmente sobre a importância da educação. “O Japão e a Coreia do Sul são bons exemplos de como a educação é importante, o Brasil poderia imitá-los”, sugere.

Canto Pereira costuma tratar desses temas nas reuniões do Centro Democrático dos Engenheiros (CDE), do qual foi presidente entre 2012 e 2015. Ele se diz um otimista, mas lamenta que “o que atrapalha o Brasil é que aqui as leis são parcialmente cumpridas”. Membro mais idoso da Associação dos Ex-Vereadores da Cidade de São Paulo (Avesp), ele pensa em escrever um livro com suas histórias e observações sobre a vida e o País.

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